Por que relembrar a Coluna Prestes em 2026?
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| Historiador Levon Nascimento publica pesquisa a respeito dos 100 anos da passagem da Coluna Prestes na região. |
Em
abril de 1926, quando o Brasil ainda vivia sob a rigidez da Primeira República,
um punhado de homens e mulheres em marcha atravessava o interior do país,
deixando para trás mais do que pegadas no chão: deixava perguntas incômodas
sobre poder, desigualdade e democracia. Essa marcha – conhecida como Coluna
Prestes – completará cem anos em 2026. Não se trata apenas de um aniversário;
trata-se de uma oportunidade de reavaliar um dos episódios mais singulares da
história política brasileira e, em especial, de reconhecer a importância de
iniciativas como o livro organizado pelo professor Levon Nascimento, a ser
lançado em abril próximo.
Entre
1924 e 1927, cerca de 1.000 combatentes liderados por Luiz Carlos Prestes
percorreram aproximadamente 25 mil quilômetros pelo interior do Brasil. Não
travaram grandes batalhas decisivas, não tomaram o poder e não instauraram um
novo regime. Ainda assim, sua marcha tornou-se um marco. A Coluna nasceu do
tenentismo, movimento de jovens oficiais do Exército insatisfeitos com a
corrupção eleitoral, o domínio oligárquico do “café com leite” e a exclusão
política da maioria da população. Seus objetivos centrais eram claros: voto
secreto, moralização da política e expansão do ensino público.
Mais
do que uma operação militar, a Coluna foi um fenômeno político e pedagógico. Ao
atravessar sertões, vilas e povoados, seus integrantes confrontaram o Brasil
real – o Brasil da miséria, do coronelismo e da ausência do Estado – e, ao
mesmo tempo, expuseram esse Brasil ao país urbano e letrado.
Entre
19 e 29 de abril de 1926, a Coluna atravessou o Norte de Minas Gerais,
especialmente a região do Alto Rio Pardo, deixando marcas duradouras na memória
local. Foi nesse contexto que ocorreu a célebre manobra do “Laço Húngaro”, em
Serra Nova – então já distrito de Rio Pardo de Minas –, uma jogada estratégica
que desorientou as tropas legalistas e permitiu à Coluna escapar de um cerco
que parecia iminente.
A
passagem por Taiobeiras, em 26 de abril de 1926, é particularmente emblemática.
Ali, segundo relatos preservados pela memória local e pela historiografia
regional, o comerciante João Rêgo negociou com os revoltosos, evitando
conflitos e protegendo a comunidade. Há ainda o episódio simbólico em que
Prestes teria devolvido a ele uma bota cheia de moedas – gesto interpretado por
muitos como sinal de uma ética própria, distinta da violência praticada por
tropas legalistas e jagunços a serviço do governo.
Mas
a memória sertaneja não é simples. Para muitos moradores, “os revoltosos” foram
sinônimo de medo, fuga e exílio temporário no mato – sobretudo porque, na
prática, era difícil distinguir entre a Coluna e as forças governistas que a
perseguiam, estas sim frequentemente responsáveis por saques e abusos
sistemáticos.
Cem
anos depois, a Coluna Prestes continua a nos interpelar. Ela nos obriga a
pensar sobre o abismo histórico entre o Brasil oficial e o Brasil profundo; a
relação entre democracia e desigualdade; o papel dos militares na política
brasileira; a violência do Estado contra populações rurais; e a construção – e
disputa – das memórias históricas. Lembrar a Coluna em 2026 não é glorificá-la
sem crítica. É, antes, situá-la em seu contexto, compreender suas contradições
e reconhecer que sua marcha revelou problemas estruturais que, em muitos
aspectos, permanecem atuais.
É
nesse cenário que ganha especial relevância o livro “A Coluna Prestes nos
Gerais de Minas”, organizado por Levon Nascimento, professor da rede estadual
de Minas Gerais. Sem apoio de universidades ou órgãos públicos regionais – o
que, por si só, já revela uma lacuna institucional – Levon assumiu a tarefa de
reunir pesquisadores, educadores e guardiões da memória para reconstruir, com
rigor histórico e sensibilidade social, a passagem da Coluna pelo Norte de
Minas.
O
mérito de seu trabalho é triplo. No plano historiográfico, sistematiza fontes,
confronta narrativas e oferece uma interpretação fundamentada sobre a presença
da Coluna no Alto Rio Pardo. No plano memorial, resgata vozes sertanejas,
histórias orais e experiências familiares que raramente aparecem nos grandes
manuais de história. No plano cívico e pedagógico, devolve à região o
protagonismo que lhe foi negado na narrativa nacional, conectando a história
local à história do Brasil.
Ao
organizar esse livro, Levon não apenas produz conhecimento; ele constrói uma
ponte entre o sertão e a academia, entre a memória popular e a história
escrita, entre Taiobeiras e o Brasil. A Coluna Prestes não foi apenas uma
marcha militar. Foi um espelho em movimento que refletiu as contradições do país.
Seu centenário, em 2026, é uma oportunidade rara de revisitar esse passado com
olhar crítico e democrático.
O
livro organizado por Levon Nascimento insere-se exatamente nessa tarefa:
iluminar um capítulo pouco estudado da história mineira, valorizar a memória do
Alto Rio Pardo e demonstrar que a história nacional também se faz nas estradas
de terra, nos povoados do sertão e nas vozes de quem viveu – e ainda vive –
longe dos grandes centros. Em tempos de disputas sobre memória, verdade e
democracia, esse esforço é não apenas relevante: é necessário.

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