Viva os Santos Reis
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| Artigo do professor e historiador Levon Nascimento. |
6 de
janeiro é celebrado, na liturgia oficial do cristianismo católico, como o Dia
da Epifania do Senhor - o dia da manifestação, do desvelamento do Mistério que
rompe a noite da história.
Na
tradição popular, essa data evoca a visita dos três reis magos ao menino Jesus,
recém-nascido, quando lhe ofereceram três dons carregados de sentido: mirra,
ouro e incenso.
Os
Evangelhos, é verdade, não afirmam que fossem reis, tampouco fixam seu número.
Mas isso pouco importa diante da força simbólica do gesto.
O
essencial é que ofereceram ao menino-Deus presentes que, profeticamente,
anunciam quem ele seria na vida pública. Mirra, para um homem - humano como
nós, em nossas dores e alegrias, semelhante em tudo, exceto na maldade. Ouro,
para um rei - não o rei que oprime, domina e se impõe pela força, mas o que
reina servindo, especialmente aos mais fracos. Incenso, para um Deus - digno de
glória nas alturas, mas que não a guarda para si: partilha-a com os pequenos,
com os pobres, com os que têm boa vontade.
Eis a
Epifania: a manifestação triunfante do pequeno, do frágil, do menino, em
oposição aos grandes e temidos senhores da história - Herodes, Pilatos, Trumps
e seus equivalentes de ontem e de hoje. A glória não se revela nos palácios,
mas numa manjedoura.
Eis os
santos reis: magos, sábios, místicos do Oriente. Não eram judeus, nem cristãos,
nem católicos, nem evangélicos. Vinham de religiões consideradas pagãs. Ainda
assim - ou talvez justamente por isso - foram os primeiros a reconhecer,
naquele menino pobre, aquele que viria para nos libertar da ignorância, da
ruindade e da injustiça. Foram estrangeiros, outsiders da fé oficial, que
enxergaram o que muitos “dentro” não viram.
Não é por
acaso que, no Brasil, os reis magos chegam cantando. Chegam com folias, com
versos e devoção, de porta em porta, de casa em casa. Trazem fitas coloridas,
violas, sanfonas e pandeiros. Levam alegria, memória, comunidade. E assim
desafiam tanto os tradicionalismos rígidos quanto os modismos vazios do Papai
Noel consumista.
Os reis
magos são a antítese do capitalismo que tenta substituir Jesus pelo consumo.
Eles não seguem vitrines, seguem estrelas. Não buscam mercadorias, buscam
sentido. Procuram o novo rei que nasceu, guiados por uma luz que brilha no céu
e no coração.
Viva
Santos Reis!

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